Atemporal, impessoal, mas muito íntimo. Depravações oníricas são isentas de culpa. Apenas descrevo o que vi ou o que criei durante o sono. Passou a noite inteira preso. Um freio fazia com que sua língua ficasse fora da boca, suas mãos estendidas pros lados suspendiam o corpo de forma que não pudesse descansar. Ficava de pé. E se tentasse sentar ou se abaixar, ficava preso pelas genitálias. Pela manhã, quando ela entrou na cela, achava-se tão atordoado que não sabia se era pelo cansaço ou pela dor. Os olhos não se mantinham abertos, suas pernas bambeavam e não tiveram forças pra suportá-lo quando os guardas o soltaram. Ela o segurou e ele pôde sentir o conforto de sua pele quente. Então a agarrou com as forças que lhe restaram, era grato - e a amava. A voz dela tinha um tom materno: Uma dor lascinante em suas costas o fez acordar aos gritos. Ofegava como um animal e tão logo começou a sangrar. Podia senti-la por cima do seu corpo - nua - lambendo suas feridas e deflagrando outras. Ela o salvava da loucura. Pelo menos era o que ele pensava. Era mais difícil não lutar sem estar amarrado. Sua força se voltava para não reagir. O corpo dela era tão delicado que não merecia o mais leve toque. Resistia, pois era o mínimo que lhe devia. E se seus gemidos causavam-na prazer, essa era a sua satisfação. O suor dela escorria em seu corpo, já estava cansada da brincadeira. Como recompensa pelo esforço, ela deixou ser beijada. Carícias à parte, pois ela também o amava. Afinal, tinha sido um bom menino. Não poderia ter sido melhor. Não era a dor que excitava. Era a capacidade de suportá-la por amor a ela não por submissão, mas pelo prazer de dar prazer.
- Agora você entende?
Balançou a cabeça afirmativamente com os olhos entreabertos. Ela o beijou e o cobriu. Assim, ele adormeceu em seus braços. Sentia que agora poderia sonhar.
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Ishikawa
rabiscos (4)
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Ishikawa
rabiscos (4)
O estacionamento estava escuro. Algumas luzes falhavam. Eu assistia dentro de uma jaula, uma mulher fazendo um homem se rastejar sob seus pés. Não se passava de uma brincadeira. Ela era rude e ele aceitava. Senti alguém me puxar pelo braço, era a Lilian, me chamando pra ir embora.
Ao sairmos da jaula, reparei que num canto do estacionamento, havia um homem segurando uma jovem mulher que se debatia. Ela tinha um vestido de festa, rasgado e sujo, pela luta que eu presenciava. Ao perceberem nossa presença, ela livrou-se dele e tentou correr em nossa direção. Não conseguiu dar mais que dois passos, pois ele a segurou pelo braço, e de longe víamos que ele encostava uma arma em sua nuca.
Ela ficou estática. Olhava-nos sem piscar, suplicando ajuda, esperando que fizéssemos algo. Olhei para a Lilian, ela mantinha a cabeça baixa e caminhava para o carro. Fiz o mesmo. Ainda com a cabeça baixa, conseguia ver que a jovem chorava, esperando a morte. Mais uma vez desviei o olhar, entrei no carro, no banco de trás. Sentia-me aliviada por que, de lá, não conseguia vê-la, apenas ouvir seu vestido ser rasgado, enquanto era estuprada.
Pela janela do carro, percebi que outra mulher, também com vestido de festa, lutava com o mesmo vigor que a outra. Fechei meus olhos. Tinha medo que me vissem lá. Tinha medo que fizessem o mesmo comigo. Ouvi um tiro. Mesmo com os olhos fechados, vi o clarão do disparo. Imediatamente um cheiro de sangue e pólvora impregnaram o ar. O silêncio desta vez, era mais agonizante que os gritos da moça.
Mantive meus olhos fechados até sairmos daquele lugar. Tentando de alguma forma, esquecer os olhos de súplica que rejeitei. Esperando tudo acabar, esperando acordar.
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Ishikawa
rabiscos (3)
A narrativa é mais uma fuga. Realidade encobre o romantismo. Palavras duras só pra afirmar minha essencialidade.
Deparei-me com meu vazio em meus textos. Com palavras que me repudiam de mim, a minha aversão aos meus versos.
A simetria me faz sentir tão artificial, tão previsível... Falar de sentimentos ficou tão batido... Na minha voz, na minha letra. Talvez esteja na hora de encontrar outras palavras. Ou buscar outros sentimentos.
Minha reflexão acontece no papel. Minhas mágoas, na borracha.
Sonhava ser poeta.
Hoje, sonho ser poesia...
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rabiscos (0)
Minha crítica não é à degradação suburbana. Minha crítica se opõe à monotonia, ao vício urbano, que se torna crônico aos olhos, ouvidos... À presença inconsciente, à poesia que escapa na degradação moral, ao comodismo de quem vê e não enxerga.
Sem grandes pretensões. Minha crítica não é apenas crítica. É minha visão. É o meu processo de digestão.
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Ishikawa
rabiscos (2)
Desprende-se de mim o meu destino.
Fruto de amor. Árvore de pecado.
Minhas mãos são paralisadas
À espera do assassino
Que arranca do meu ventre
Minha alma atormentada.
Seu grito, Seu choro
Abafados pelo silêncio.
Fragmentada no sangue
A dor que sente.
Perdida do destino
A vida amada.
Ah! Pudera eu agora
Embalar-te no peito,
Atendendo ao choro
Sem demora.
Esquentar o pequeno ser
de toque frio...
E recuperar minh'alma criminosa
Ao meu corpo que jaz vazio.
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rabiscos (0)
Olhos tarjados tornam a abordagem mais impessoal. Uma distorção e as vozes ganham o anonimato. A tarja não mostra o brilho das lágrimas no canto dos olhos. A distorção encobre a voz infantil.
Não são apenas pessoas passando. Ombros trombando, olhos baixos ou ao além. São PESSOAS, são histórias. Pensamentos que se cruzam em olhares perdidos. Perdidos atrás de uma tarja preta...
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rabiscos (1)
O banho foi mais demorado, a TV distraiu o tempo... e o telefone não tocou. Ele só esperou. Lembrou-se da voz dizendo: "Dentro de uma semana nós ligaremos". Uma semana inteira. Duas. E nada. Na quarta semana, o banco ligou, a telefônica ligou, a imobiliária ligou. E logo cessou. Ninguém mais ligava. Por mais que tentassem. - O telefone foi cortado.
As noites eram uma tortura. Quando a mulher chegava do trabalho, os ouvidos latejavam. Tanto que, poupava suas palavras com medo que a estimulasse mais a falar.
Dormia calado. Com hálito de cerveja. Era mais um desempregado assumido.
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rabiscos (0)
O frio não desola os afortunados. O papelão aquece mais do que os olhares que atravessam. A roupa já marcada pelo tempo e por todos os lugares por onde passou acompanha a ausente lembrança. Mente vaga. Como ele, vaga.
Sob os pés nus, o asfalto ainda guarda o calor do dia. A garrafa na mão ilude um abraço caloroso, que ele talvez, nem lembre mais a sensação.
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rabiscos (0)
Abrigam-se do frio
Os solitários em sua etnia.
As chuvas de medos derradeiros,
Constróem mortes,
Tecem rios.
Sentimento medíocre faz companhia?
Ou medíocre homem se faz companheiro?
Se existisse algo verdadeiro
Tudo seria diferente. Seria.
Meus filhos não seriam da desgraça minha,
Os herdeiros.
E nem eu se pudesse,
Os faria.
Fixação sedenta de futuro
Pisoteia os sonhos de criança.
E acabam-me as forças com que aturo
A frialidade de tal ignorância.