...rascunhos...

...na lata do lixo

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O amor do Libertino é a sua fraqueza.
Ama-se tudo,
Amando-se nada.

Quais das mãos serão capazes de me segurar?
Qual dos olhares será capaz de me envolver?
Qual dos beijos será capaz de me aprisionar?
Qual dos abraços será capaz de me aquecer?

O Libertino possui a todos
(escraviza-se por vaidade).
No orgasmo, o jogo
No vazio, a liberdade.

Desejo que arde.
Vazio que queima.

O Libertino possui a todos
Para que deseje a si próprio.
Na paixão, o corpo -
No coração, o ócio.







Lá fora, o mundo se molda às leis do Universo, e o tempo lapida as formas que a luz traduz em poesia para os olhos. Formas que invadem o espaço em versos olfativos, enxugam o vazio com rimas sensoriais.
Na complexidade das sinapses, aqui dentro, formam-se melodias substanciais em meu corpo, numa satisfação incipiente. Alguns homens a transformam e chamam-na de arte. Eu a consumo com meus sentidos, exploro com pensamentos sem tentar tranformá-la com minha racionalidade. Apenas busco matéria-prima pra minha alma.

Foto: Debora Ishikawa











A narrativa é mais uma fuga. Realidade encobre o romantismo. Palavras duras só pra afirmar minha essencialidade.
Deparei-me com meu vazio em meus textos. Com palavras que me repudiam de mim, a minha aversão aos meus versos.
A simetria me faz sentir tão artificial, tão previsível... Falar de sentimentos ficou tão batido... Na minha voz, na minha letra. Talvez esteja na hora de encontrar outras palavras. Ou buscar outros sentimentos.
Minha reflexão acontece no papel. Minhas mágoas, na borracha.

Sonhava ser poeta.
Hoje, sonho ser poesia...

















Desprende-se de mim o meu destino.
Fruto de amor. Árvore de pecado.
Minhas mãos são paralisadas
À espera do assassino
Que arranca do meu ventre
Minha alma atormentada.
Seu grito, Seu choro
Abafados pelo silêncio.
Fragmentada no sangue
A dor que sente.
Perdida do destino
A vida amada.
Ah! Pudera eu agora
Embalar-te no peito,
Atendendo ao choro
Sem demora.
Esquentar o pequeno ser
de toque frio...
E recuperar minh'alma criminosa
Ao meu corpo que jaz vazio.















O frio não desola os afortunados. O papelão aquece mais do que os olhares que atravessam. A roupa já marcada pelo tempo e por todos os lugares por onde passou acompanha a ausente lembrança. Mente vaga. Como ele, vaga.
Sob os pés nus, o asfalto ainda guarda o calor do dia. A garrafa na mão ilude um abraço caloroso, que ele talvez, nem lembre mais a sensação.









A cidade apodrece. Mais ainda ao anoitecer. Quando os exilados da sociedade saem de suas tocas. Porque o luar não discrimina ninguém. Os vultos se esgueiram nas paredes. O centro toma outra dimensão.
A calçada parece macia. Os lixos, prateleiras de supermercado.
No dia seguinte, apenas o odor no concreto. Como se nada daquilo existisse. Porque ninguém vê. Ninguém viu.







Abrigam-se do frio
Os solitários em sua etnia.
As chuvas de medos derradeiros,
Constróem mortes,
Tecem rios.

Sentimento medíocre faz companhia?
Ou medíocre homem se faz companheiro?
Se existisse algo verdadeiro
Tudo seria diferente. Seria.

Meus filhos não seriam da desgraça minha,
Os herdeiros.
E nem eu se pudesse,
Os faria.

Fixação sedenta de futuro
Pisoteia os sonhos de criança.
E acabam-me as forças com que aturo
A frialidade de tal ignorância.