...rascunhos...

...na lata do lixo

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O estacionamento estava escuro. Algumas luzes falhavam. Eu assistia dentro de uma jaula, uma mulher fazendo um homem se rastejar sob seus pés. Não se passava de uma brincadeira. Ela era rude e ele aceitava. Senti alguém me puxar pelo braço, era a Lilian, me chamando pra ir embora.

Ao sairmos da jaula, reparei que num canto do estacionamento, havia um homem segurando uma jovem mulher que se debatia. Ela tinha um vestido de festa, rasgado e sujo, pela luta que eu presenciava. Ao perceberem nossa presença, ela livrou-se dele e tentou correr em nossa direção. Não conseguiu dar mais que dois passos, pois ele a segurou pelo braço, e de longe víamos que ele encostava uma arma em sua nuca.
Ela ficou estática. Olhava-nos sem piscar, suplicando ajuda, esperando que fizéssemos algo. Olhei para a Lilian, ela mantinha a cabeça baixa e caminhava para o carro. Fiz o mesmo. Ainda com a cabeça baixa, conseguia ver que a jovem chorava, esperando a morte. Mais uma vez desviei o olhar, entrei no carro, no banco de trás. Sentia-me aliviada por que, de lá, não conseguia vê-la, apenas ouvir seu vestido ser rasgado, enquanto era estuprada.
Pela janela do carro, percebi que outra mulher, também com vestido de festa, lutava com o mesmo vigor que a outra. Fechei meus olhos. Tinha medo que me vissem lá. Tinha medo que fizessem o mesmo comigo. Ouvi um tiro. Mesmo com os olhos fechados, vi o clarão do disparo. Imediatamente um cheiro de sangue e pólvora impregnaram o ar. O silêncio desta vez, era mais agonizante que os gritos da moça.
Mantive meus olhos fechados até sairmos daquele lugar. Tentando de alguma forma, esquecer os olhos de súplica que rejeitei. Esperando tudo acabar, esperando acordar.









Lá fora, o mundo se molda às leis do Universo, e o tempo lapida as formas que a luz traduz em poesia para os olhos. Formas que invadem o espaço em versos olfativos, enxugam o vazio com rimas sensoriais.
Na complexidade das sinapses, aqui dentro, formam-se melodias substanciais em meu corpo, numa satisfação incipiente. Alguns homens a transformam e chamam-na de arte. Eu a consumo com meus sentidos, exploro com pensamentos sem tentar tranformá-la com minha racionalidade. Apenas busco matéria-prima pra minha alma.

Foto: Debora Ishikawa











Nas placas, o tempo toma forma. Nos postes, nos muros, no outdoor. A fuligem prolifera numa compulsiva poluição, que enrubesce o pôr-do-sol - e entedia os olhos diante da monocromática natureza do concreto.
Até o céu e as nuvens estão cinza. A noite perde deu charme. Não há intensidade em sua imensidão. Apenas os reflexos da cidade: o medo do escuro. Tão ofuscante, que estrelas já não habitam o céu. O céu da cidade, da visão entediada, dos olhos viciados.






Arte de intervenção urbana de Alexandre Orion
http://www.alexandreorion.com










Olhos tarjados tornam a abordagem mais impessoal. Uma distorção e as vozes ganham o anonimato. A tarja não mostra o brilho das lágrimas no canto dos olhos. A distorção encobre a voz infantil.
Não são apenas pessoas passando. Ombros trombando, olhos baixos ou ao além. São PESSOAS, são histórias. Pensamentos que se cruzam em olhares perdidos. Perdidos atrás de uma tarja preta...










O frio não desola os afortunados. O papelão aquece mais do que os olhares que atravessam. A roupa já marcada pelo tempo e por todos os lugares por onde passou acompanha a ausente lembrança. Mente vaga. Como ele, vaga.
Sob os pés nus, o asfalto ainda guarda o calor do dia. A garrafa na mão ilude um abraço caloroso, que ele talvez, nem lembre mais a sensação.









A cidade apodrece. Mais ainda ao anoitecer. Quando os exilados da sociedade saem de suas tocas. Porque o luar não discrimina ninguém. Os vultos se esgueiram nas paredes. O centro toma outra dimensão.
A calçada parece macia. Os lixos, prateleiras de supermercado.
No dia seguinte, apenas o odor no concreto. Como se nada daquilo existisse. Porque ninguém vê. Ninguém viu.